Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Muitas pessoas atribuem ao capitalismo os males do mundo. Sugiro cautela e um bom livro de história. Capitalismo não é exatamente o Brasil, em que uma determinada camada social extrai da outra o quanto pode. Nós temos a pior distribuição de renda do planeta. Pense na Suécia, no Canadá, ou em muitos outros lugares onde as coisas não são assim. Em verdade, em nenhum tempo e em lugar algum do mundo houve tanta possibilidade de realização da própria vontade como nos dias capitalistas dos países ocidentais mais avançados. Sim, sei perfeitamente que vontade é coisa manipulável, inclusive pela lógica capitalista, mas não mais do que em outros sistemas; escrevi um livro inteiro sobre o assunto (Liberdade Privada e Ideologia, disponível em meu site).
E os males do mundo, vindos com “esse consumismo desenfreado e sem coração”? O mundo era bem pior antes do “consumismo”. Aliás, não tenho uma lista moral dos males do mundo. Suspeito de quem se pense capaz de escrevê-la. Desconfio de quem está pronto para ditar as condições de um mundo melhor. Acredito na construção social de formas de viver, mas como processo político, sem receita universal e sem lugar único de chegada. Consumo é outro assunto (se é possível separar o humano em assuntos). Consumo é natureza humana civilizada. O humano, cujo único compromisso na natureza era realizar a própria vontade, recebeu freios, os limites civilizatórios. Nesses limites eu encaixo vontades, mas tão-só as permitidas.
Vontades permitidas: substituição de meus desejos. Às demandas do meu âmago eu forneço o que me entretenha. Eu consumo. Compro brinquedos de adultos que me ocupam, oferecem um prazer substituto dos prazeres mais fundos que eu não posso realizar porque os costumes não deixam. Numa vertigem de procura de satisfação que nunca alcança plenitude, até o corpo é consumido, reparado e exposto como dita a moda. Mas então, afinal, também eu condeno o consumismo? Individualmente, realizo uma eleição intelectual do que me parece sensato para levar uma vida agradável, com um pé na cultura erudita e outro nos meus instintos mais primitivos (creio num bom acordo entre esses limites). O consumo, em si, não é minha maior preocupação.
E a perversidade capitalista? O mercado é uma invenção humana para contentar demandas humanas: consumir oferece satisfação. As pessoas, compensando os interditos sociais, compram para ludibriar a fome do princípio do prazer. O princípio do prazer ofende a moral religiosa. É um conflito antigo. Justiniano, imperador do mundo cristão (483–565), mandou que se fechassem todos os estabelecimentos onde houvesse divertimento. Literalmente, sofria castigo quem demonstrasse estar feliz. Essa repressão durou até o fim da Idade Média, ou seja, mais de mil anos. Só em 1789, com a Revolução Burguesa e o decorrente decréscimo do poder católico, a ideia de felicidade voltou a ser discutida. Nessa época do ano, o céu é o shopping, a vida não é eterna e a felicidade é o gozo efêmero do comprar. Ide em paz e que as compras vos acompanhem. Amém.
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