Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicólogo e Jornalista.
Professor da Unisul.
As qualidades que compõem as pessoas que me cercam qualificam a minha vida. Um dos maiores prazeres que podemos ter é a interlocução com quem nos está próximo. Faz bem conversar. É cativante alguém que oferece e recebe ideias, concordando com as minhas, ou delas, não importa, discrepando. Conversar, contudo, é um ato intelectual, necessita de certos saberes. Certo, pessoas mais toscas falam. Mas a fala simplória não corresponde ao gesto elevado de dialogar.
Creio que os brasileiros não conversamos bem, pelo que leio nos jornais. Temos muitos analfabetos das letras em geral, temos mais ainda analfabetos funcionais, que não sabem lidar com seu ofício, e temos os que estudam, mas vão mal nas comparações internacionais. Ficando na qualificação profissional. Quem não sabe lidar com os seus afazeres de profissão, será que toca bem as coisas da própria vida? Será que se apurou bem para os gostos e desgostos da existência? Gosto não se discute? Discute-se, aprende-se, aprimora-se, para gostar-se dos gostos bons, que cada cultura tem os seus.
Cada cultura tem os bons e maus gostos seus. E se o país tem duas culturas? O Brasil tem um bom gosto para a classe A e outros gostos para as classes que vêm depois. As reportagens sobre consumo da classe C dizem isso. Na música, na roupa, na comida, há um modo muito particular de cada segmento social gozar o consumido. Preconceito? Não. É reconhecer os desdobramentos de anos de exclusão social. Quando os pobres em geral conseguiram reservar algum dinheiro (com o fim da inflação), passaram a comer, conforme a sua (falta de) educação, coisas de mau gosto e prejudiciais à saúde.
Gosto é uma produção histórica, como tudo o que é cultural. Pessoas educadas receberam informação suficiente para poder discernir e formar gosto (claro, com conteúdos de subjetividade e idiossincrasias). Pessoas educadas, então, conversam melhor e sobre coisas que interessam. Preconceito? Não. Reconhecimento da importância da educação. E se ao derredor impera a ignorância, é por que no meu país, durante séculos, a classe dirigente furtou do povo as suas oportunidades, particularmente a de se educar de forma adequada.
Não é muito difícil compreender a questão individual. A minha existência será tão boa e inteligente quanto sejam boas e inteligentes as existências de meus entes queridos. Exemplo: o rapaz bonito mas ignorante terá dificuldade em manter o interesse da namorada com formação em bons colégios. O diálogo será sempre truncado, ele não alcançará as percepções que ela tem da vida e dos prazeres que a vida educada oferece. Preocupa-me a dimensão coletiva do assunto. Como fica um país com tantos ignorantes?
Fica de gosto ruim, conversa mal consigo mesmo. Os sabidos que se apropriam da maior parte da renda nacional, claro, se locupletam. E a nação? A nação tem menos sabedoria, menos aprimoramento de seus valores e instituições. Tem menos produtividade, menos interesse no meio ambiente, menos criação artística e científica, menos progresso. Onde as classes dirigentes expropriam as chances do povo, a vida mesma é mais tacanha e mais curta. Sabe-se menos, há menos coisas interessantes para conversar. Ignorantes ignoram. Os nossos ignorantes ignoram igual. Restamos todos, porque nossa vida é aqui, com pouco gosto e falta de ideias para trocar. Os que estão bem sobram em solidão.
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicólogo e Jornalista.
Professor da Unisul.
As qualidades que compõem as pessoas que me cercam qualificam a minha vida. Um dos maiores prazeres que podemos ter é a interlocução com quem nos está próximo. Faz bem conversar. É cativante alguém que oferece e recebe ideias, concordando com as minhas, ou delas, não importa, discrepando. Conversar, contudo, é um ato intelectual, necessita de certos saberes. Certo, pessoas mais toscas falam. Mas a fala simplória não corresponde ao gesto elevado de dialogar.
Creio que os brasileiros não conversamos bem, pelo que leio nos jornais. Temos muitos analfabetos das letras em geral, temos mais ainda analfabetos funcionais, que não sabem lidar com seu ofício, e temos os que estudam, mas vão mal nas comparações internacionais. Ficando na qualificação profissional. Quem não sabe lidar com os seus afazeres de profissão, será que toca bem as coisas da própria vida? Será que se apurou bem para os gostos e desgostos da existência? Gosto não se discute? Discute-se, aprende-se, aprimora-se, para gostar-se dos gostos bons, que cada cultura tem os seus.
Cada cultura tem os bons e maus gostos seus. E se o país tem duas culturas? O Brasil tem um bom gosto para a classe A e outros gostos para as classes que vêm depois. As reportagens sobre consumo da classe C dizem isso. Na música, na roupa, na comida, há um modo muito particular de cada segmento social gozar o consumido. Preconceito? Não. É reconhecer os desdobramentos de anos de exclusão social. Quando os pobres em geral conseguiram reservar algum dinheiro (com o fim da inflação), passaram a comer, conforme a sua (falta de) educação, coisas de mau gosto e prejudiciais à saúde.
Gosto é uma produção histórica, como tudo o que é cultural. Pessoas educadas receberam informação suficiente para poder discernir e formar gosto (claro, com conteúdos de subjetividade e idiossincrasias). Pessoas educadas, então, conversam melhor e sobre coisas que interessam. Preconceito? Não. Reconhecimento da importância da educação. E se ao derredor impera a ignorância, é por que no meu país, durante séculos, a classe dirigente furtou do povo as suas oportunidades, particularmente a de se educar de forma adequada.
Não é muito difícil compreender a questão individual. A minha existência será tão boa e inteligente quanto sejam boas e inteligentes as existências de meus entes queridos. Exemplo: o rapaz bonito mas ignorante terá dificuldade em manter o interesse da namorada com formação em bons colégios. O diálogo será sempre truncado, ele não alcançará as percepções que ela tem da vida e dos prazeres que a vida educada oferece. Preocupa-me a dimensão coletiva do assunto. Como fica um país com tantos ignorantes?
Fica de gosto ruim, conversa mal consigo mesmo. Os sabidos que se apropriam da maior parte da renda nacional, claro, se locupletam. E a nação? A nação tem menos sabedoria, menos aprimoramento de seus valores e instituições. Tem menos produtividade, menos interesse no meio ambiente, menos criação artística e científica, menos progresso. Onde as classes dirigentes expropriam as chances do povo, a vida mesma é mais tacanha e mais curta. Sabe-se menos, há menos coisas interessantes para conversar. Ignorantes ignoram. Os nossos ignorantes ignoram igual. Restamos todos, porque nossa vida é aqui, com pouco gosto e falta de ideias para trocar. Os que estão bem sobram em solidão.
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